Racismo no ramo cervejeiro: Até quando?

Neste último final de semana vieram a público vários prints de conversas entre profissionais do ramo cervejeiro, os registros expuseram uma ferida que tem sido evidenciada ultimamente: o racismo.


Após a cervejaria Dogma ser alvo de críticas sobre a cerveja Cafuza ser um rótulo de cunho racista, o assunto foi levado para um grupo de whatsapp e discutido por profissionais do ramo cervejeiro, onde vários acabaram destilando ataques racistas sobre as pessoas que se sentiram ofendidas com o rótulo. Imagens abaixo. Entenda o caso Dogma neste link.


Durante a conversa no grupo intitulado como "Cervejeiros Illuminati" outras demonstrações de racismo foram feitas à sommelière Sara Araújo, no qual sempre lutou pela inclusão de negros no mercado cervejeiro.


Os ataques racistas também foram destinados a cervejaria Implicantes, que recentemente abriu um financiamento coletivo conhecido como crowdfunding, para poder se manter em meio à crise criada pela pandemia.


Manifestações nas redes sociais


Até o momento desta publicação muitas empresas e órgãos se manifestaram com notas de repúdio sobre o caso, porém, nenhuma das empresas no qual um de seus funcionários ou CEO envolvido se manifestaram. Associações acabaram fazendo comunicados sobre o caso, como a ABRACERVA, associação no qual sofreu cobranças nas redes sociais sobre a possível punição do membro de uma das regionais que está envolvido no caso. Até o momento houve muitos discursos e nenhuma punição.



Preconceito, até quando?


Os envolvidos no caso de racismo são homens, brancos, empresários ou profissionais de cargos importantes dentro do ramo cervejeiro, todos com boa formação. O que isso significa? Que nenhum deles poderiam opinar sobre racismo, que nenhum deles teria o direito de desmerecer a luta do próximo por igualdade.


Vamos fazer um exercício rápido falando a língua que todos entendemos: Para ser jurado de um concurso importante de cervejas você precisa ser um profissional que estudou ou que tem vivência no ramo, caso contrário você não é qualificado o suficiente para julgar. Não há a possibilidade de convidarem um José, que está no bar da esquina comendo sua coxinha e tomando sua cerveja estupidamente gelada para julgar o concurso. Mas por qual razão, alguém que não vivencia o preconceito por conta da sua condição social ou cor da pele, alguém que nunca estudou e se profissionalizou no assunto poderá julgar o que é ou não racismo?


Concluí que o preconceito racial e social em uma pessoa é inversamente proporcional à sua capacidade de corrigir os próprios erros.

Ao todo foram expostas mais de 50 imagens da conversa, publicamos as mais leves e com menor quantidade de palavrões por respeito ao leitor, nas mensagens há palavras de preconceito racista e homofóbico.


É preciso falar sobre racismo


Numa abordagem direta sobre racismo, muita gente talvez diga que não existe discriminação racial no Brasil, ou há quem não se dá conta de seu preconceito velado, escondido, tão banalizado socialmente que pode não ser percebido.


Você já falou ou escutou algumas dessas expressões? "serviço de preto", "mulata", "a coisa tá preta", "cor do pecado", "criado mudo", "samba do crioulo doido", "mercado negro", "denegrir", se a resposta for sim, provavelmente você ainda não se deu conta do quanto está sendo racista. Palavras dizem muito sobre a história e a cultura de uma sociedade, ou seja, entre sutilezas, brincadeiras e aparentes elogios, a violência simbólica se amplia quando expressões como estas citadas são repetidas.


O preconceito não fica claro, mas continua ali, mesmo nos dias atuais, implícito nos comentários sobre o cabelo e a cor da pele, no medo ao cruzar com um homem de pele escura na rua, na visão estereotipada de uma sexualidade diferente. Pior: Quem sofre racismo enfrenta obstáculos concretos no acesso a bens, serviços e direitos, além de problemas psicológicos gerados por problemas de aceitação e baixa autoestima.


O racismo além de doer na alma de quem sofre, vai doer no bolso de quem pratica.

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